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Olhos de Esclera Dourada (contos gratuitos para ler no Clube)

“Carla fica cara a cara com uma pedra misteriosa que dá a ela estranhas habilidades.”

 

Conto: Olhos de Esclera Dourada

Autor: Lucas Zanella

Gêneros: Sobrenatural

 

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Andou pela calçada enquanto, ao lado, os carros buzinavam sem parar. Passou pelos hotéis Umburu, Costa, Braguinha e então chegou na interseção da rua, na esquina. Não dava para saber se era uma casa de dois andares ou então um edifício que algum dia foi usado como escritório, mas era visível que agora estava desabitado. A porta tinha um vidro de mosaico que não permitiria que o interior fosse bem visto, mas nele também havia um buraco feito por alguma pedra ou tijolo.

Ela se inclinou e espiou dentro do lugar. Viu móveis velhos cobertos por teias de aranha, assim como o couro dos sofás que apareciam foram todos roídos como que por ratos famintos. Tudo lá que havia de madeira também fora acabado por cupins, parecia que até era possível vê-los caminhando alegremente por sobre a superfície esburacada da bancada onde ficaria uma recepcionista. O hotel que ficava do outro lado da rua, Silva, estava fechado para reforma havia pelo menos dez anos. Carla se lembrava que mesmo naquela época esse prédio comido pelo tempo já estava fechado.

Um homem a notou perto da porta e jogou o cigarro que fumava no chão. Antes de mais nada, pisou nele com a ponta do pé para apagá-lo. Era incrível o número de incêndios que aconteciam apenas porque um idiota se esquecia de fazer isso. O ar ali era muito seco, era bem provável que dia ou outro a água do rio pegasse fogo também. Provavelmente já estava cheia de gasolina do antigo posto beira-mar. Era mais turva e opaca que as costas de um espelho.

Ele olhou para a direita na rua de via única e, quando viu que o próximo carro estava longe o suficiente, correu até a calçada. A mulher ainda encarava o prédio por dentro e não o viu se aproximar. Tocou seu ombro descoberto e ela se virou, uma expressão de horror em seu rosto. Ao mesmo tempo, ela puxou a bolsa para perto de si sem nem perceber.

– Trouxe o dinheiro? – ele perguntou, checando a bolsa. Era uma Gucci preta e mais que certo original. Talvez até mesmo importada.

Ela precisou de um momento para se recompor.

– Sim, é claro que trouxe. Que lugar é esse?

– Não funciona mais – disse e passou o braço no nariz grande. Quando percebeu que sua afirmação era bastante óbvia, continuou: – Era um prédio administrativo, se não me engano de alguma faculdade particular de Direito. Ou então de uma firma de advogados, eu nunca descobri. Já estava abandonado quando eu me mudei para cá.

– Quando foi que você se mudou?

– Aos quinze, vim para cá por causa da escola. Na minha cidade não tinha ensino médio – ele disse sem dar importância. Carla notou que era um homem alto, e precisava fechar o olho ao encará-lo porque o sol batia em seu rosto. Devia ter uns quarenta anos, ou então perto disso.

Carla observou o prédio. Não havia mais nenhuma inscrição de logotipo nele. Tudo o que se via era uma pintura ressecada que caía constantemente. O chão estava repleto de lascas brancas de tinta seca. O edifício era nada mais do que um grande bloco de cimento apodrecido.

– Devemos entrar – ele disse olhando para a rua. – Não é bom que alguém veja a gente aqui.

A interseção e a calçada eram movimentadas demais para que alguém mesmo os notasse parados em frente ao lugar, mas Carla concordou. Não queria que ninguém a visse, mesmo que as chances fossem mínimas.

– Licença.

A chave que ele tirou do bolso não parecia velha. Ele a girou com tranquilidade no trinco da porta e então empurrou o metal para que ela deixasse de ficar emperrada. Era um costume ter de fazer aquilo, e também era bom porque fazia os outros pensarem que era impossível entrar lá dentro. Não que alguém fosse querer entrar lá.

Carla passou primeiro e Júnio foi depois, não sem antes dar uma olhada ao redor para ver se alguém os observava. Trancou a porta novamente assim que entraram. A mulher o ficou observando. Pensou que talvez devesse insistir para que ele não chaveasse a porta, mas nenhum protesto saiu da sua boca. O que saiu foi apenas uma pergunta.

– É onde?

– Lá em cima – ele disse, guardando a chave no bolso de trás da bermuda e olhando para ela dos pés à cabeça. – Tem certeza disso, moça?

Ela não respondeu e ele encarou como se fosse uma confirmação.

– Tudo bem, então. Cuidado com o pezinho, têm caco de vidro pelo chão.

Os sons do pisar nos fragmentos saltaram para as paredes e para os ouvidos. Os pés de Júnio já estavam bem maltratados por conta das vezes em que um caco pulou sem que ele notasse. Ainda assim, usava um chinelo velho e não um tênis.

Subiram uma escadaria de poucos degraus e Carla fez força para não tocar no corrimão que parecia ser a coisa mais suja daquele lugar. Talvez devesse ter vindo com uma roupa diferente, com uma bolsa diferente. Novamente sem perceber, ao pensar isso puxou ela para mais perto de si, quase teria rasgado o couro com tanta pressão que fazia contra ele, mas as unhas eram postiças.

Ele parou em frente a porta e ela quase bateu nas suas costas por não ter percebido. Desceu um degrau para o ver melhor e esperou que falasse.

– Antes de entrar, acho melhor você me dar o dinheiro. Sabe, para ter certeza de que não vai me lograr – disse e deu um sorriso afetado. Carla pensou que talvez alguma coisa do tipo já houvesse acontecido.

– Claro. Quanto mesmo? – perguntou embora já tivesse o valor na cabeça desde que trocou o lado da rua ao sair de casa.

– Quatro.

– Tá aqui dentro. Vai querer contar antes? – entregou o pacote pardo com os quatro mil reais para ele.

Ele pensou seriamente no assunto. Se fosse qualquer outra pessoa, diria que sim, mas aquela mulher não parecia ser do tipo que daria menos dinheiro do que o pedido. Também parecia que a grana não faria falta para a sua vida. Uma parte dele odiou isso e quis lhe dar um tapa bem naquela cara de gentinha rica, mas se controlou. Não se bate em clientes, muito menos em mulheres. Pelo menos não sem um bom motivo.

– Não. Entra! – Júnio foi para o lado e deu espaço para que ela passasse. Sentiu o cheiro de um perfume que não conhecia quando ela entrou. Ele continuou ali, esperando, mas olhando para dentro porque queria ver. Sempre gostava de ver o início.

A sala em que ela entrou tinha portas para outras, que seriam os escritórios ou então salas de aula, mas não entrou em nenhuma. O que procurava estava logo ali, no centro do cômodo, sobre uma caixa de papelão retangular que fora erguida com a boca virada para baixo e a bunda para cima. Era uma pedra dourada que emanava um pouco de brilho. Carla não pôde deixar de pensar que se parecia muito com uma pepita de ouro. Uma que valia bastante grana, foi o que Júnio pensara quando a viu pela primeira vez.

– Pode me contar a história de novo? – ela pediu, sabia que ele estava observando embora não houvesse virado a cabeça para checar. Falou sussurrando. Não se atreveria a gritar ou mesmo falar um pouco mais alto ali, tudo estava tão silencioso.

Ele bufou e se escorou no portal.

– Eu não sei quando isso veio para cá. Tá vendo o buraco no teto? – ele apontou, mas ela não o estava observando para notar isso. Mesmo assim, ergueu a cabeça e confirmou. – Bom, acho que ela entrou por ali.

– Quando?

– Eu disse que não sei. Mas faz três ou quatro anos que vim aqui no prédio e encontrei ela. Depois que percebi o que faz, eu comecei a lucrar com isso. Não sou bobo – disse ainda mais baixo.

– De onde será que veio? – ela perguntou. Fechou um olho para poder ver pelo buraco do tamanho da pedra no teto. O céu começara a escurecer um pouco.

– Eu não sei. Se dissesse pra algum cientista, talvez pudesse ter certeza, mas acho que não vou fazer isso, não é mesmo, amor?

Carla se aproximou da pepita e passou a língua pelos lábios vermelhos e grossos.

– E tá limpa?

Júnio gargalhou.

– Mais limpa que o Tietê.

– Tudo bem se eu tocar nela? – perguntou e olhou para ele, que deu de ombros.

Primeiro segurou a caixa pelas laterais, para não tocar na pedra. Inclinou-se e pôs a língua para fora. Estava bem vermelha e úmida. Segurou então a pepita em si e se aproximou ainda mais. Lambeu seu topo num movimento lento, como se estivesse tentando sentir e apreciar o sabor. Mas o sabor não era nada bom. Amargo, com um toque de poeira. Tinha migalhas como de pão por toda parte, a língua de Carla já estava quase toda dourada antes de voltar para a boca.

Júnio percebeu a pausa e se mexeu para ver se ela estava bem. Os olhos estavam fechados como se sentisse dor, mas então abriu a boca novamente a língua voltou, desta vez um pouco menos vermelha. Era uma mistura de rosa com dourado com branco.

Tocou a lateral, duma ponta a outra. Voltou para dentro. Engoliu. Pôs para fora. Outra lateral.

Mal ela tinha acabado de engolir a terceira leva do pó dourado e mais já tinha aparecido. Ela se perguntou se Júnio permitiria que ela fizesse de novo, para sentir os efeitos mais fortes. Júnio, no caso, não permitiria. Correria até ela e a puxaria. Ele já sabia o que acontecia ao tentar mais uma vez. Não conseguia tirar a merda da imagem da cabeça.

Veio de Carla uma espécie de gemido de prazer absoluto. Ele sabia que já estava pronto e, então, se aproximou. Ela virou os olhos para ele, estavam atentos a qualquer movimento que fizesse, além do fato de que eram dourado puro, até mesmo a parte branca. A esclera. Ele repetiu a palavra num movimento sem som dos lábios.

Havia apenas um pontinho que era de um dourado mais escuro, ele se movia constantemente, como se ficar parado doesse fisicamente. Provavelmente doía, mas Júnio mesmo não poderia dizer. Nunca antes provara da pepita e preferia que continuasse assim. Misturar negócios com prazer não era uma boa ideia. Agarrou Carla pelo braço e a levou até um canto do cômodo, onde a deitou no chão.

– Eu consigo ver… – ela disse. Era uma voz que não vinha da garganta, mas de algum lugar muito mais profundo. O tipo de coisa que se ouve quando se está falando dormindo. Júnio sentiu os pelos do braço se contorcerem desconfortavelmente.

– O que é que você vê?

– Tudo – respondeu sem nem se dar conta. Talvez nem mesmo soubesse que estava falando.

O transe era forte. Júnio se sentou do outro lado, longe dela, e abriu o saco pardo com o dinheiro. Começou a contar.

Embora os olhos de Carla estivessem dourados, ela não via assim, não, via em cores vivas e bem saturadas. Mas também não via o quarto em que estava há pouco. O que observava era uma grama verdinha e com cheiro de fresca, como se o sereno que cai à noite ainda estivesse por ali. Isso que era de dia, o sol estava bem no topo da cabeça, então só podia significar que era meio-dia.

Ela andava, mas não muito bem. Era como se mancasse sem necessidade. Os braços estavam estendidos em frente ao corpo sem nada tatear. Parecia uma cega jogada num lugar desconhecido.

O pai não demonstrava notar o modo como a filha andava.

– O que você tá fazendo aqui, garotinha? – ele perguntou e a pegou no colo. – Vamos lá que a comida já tá na mesa. Quando foi que você acordou?

Carla se encontrou impossibilitada de responder. Não sabia ainda como falar.

– Onde é que ela tava? – a mãe perguntou, pegando Carla do colo do pai e a colocando no seu banquinho, bem presa para que não caísse enquanto comesse.

– No pátio, treinando andar – o pai se sentou e puxou o prato ali para perto de si. Inspirou com vontade e expirou com a boca aperta. – Que cheiro bom.

– Aqui. E coma tudo, viu? – a mãe deu a ela uma colherzinha para comer.

Ela comeu tudo.

Foram todos para o quarto, Carla estava no meio deles, parecendo se divertir com o simples fato de que tinha dedos no pé. A Carla real não se lembrava daquele tempo, mas agora que o estava vendo com seus próprios olhos infantes, achava-o incrível, embora nada acontecesse. Foi bom ter ouvido falar sobre a pedra. Era bom rever os pais.

Mas ela tinha total conhecimento dos efeitos. Primeiro, era tudo uma maravilha, bonito e alegre. A parte ruim viria mais tarde, quando os efeitos das migalhas da pepita estivessem se esvaindo e a parte do seu cérebro responsável pelas memórias, visão e tato tivessem voltado a ser o que realmente eram. Ela não queria acordar naquele quarto com aquele homem, mas alguma hora teria de o fazer.

Merda, talvez roubasse a pedra, matasse o homem e ficasse com ela para si. Sempre que o efeito passasse, lamber-lhe-ia de novo, tentaria até mesmo achar novos modos de consumir o pó. O colocaria no suco de laranja matinal e o usaria para salgar os ovos fritos se fosse necessário. Era bem provável que amarrasse uma cordinha num pedaço menor da pedra e o enfiasse guela abaixo, com a outra ponta presa num dente.

– O aniversário dela tá chegando – a mãe disse. – O que a gente vai fazer?

– Eu acho que é melhor a gente apenas comprar um bolo e fazer algo aqui mesmo. É mais barato.

– O que você acha disso, amor? Hein? Ha-ha. – ela estava fazendo cócegas na barriga de Carla.

Ah, o Paraíso. Não a expressão, o lugar real, aquele em que a gente vai depois que morre, se foi bonzinho na vida. Ele devia ser exatamente como aquele lugar. Uma casinha de madeira que está quase caindo aos pedaços (mas tem seu charme) num lugar afastado da cidade, quase como um campo ou uma fazenda, onde a grama é verde e as árvores dão frutos. Havia até mesmo um moinho um pouco mais ao lado, fazia parte da propriedade e o pai começou a trabalhar nele depois que se mudaram para ali.

Agora, com a filha, tinha que ganhar um dinheiro extra.

O Paraíso era ver através dos seus olhos de criança, de bebê que está ainda aprendendo a andar. Mal consegue dizer “papai” e “mamãe”, mas consegue ver. E ver é o que é mais importante. As cores saturadas das árvores, grama e flores, Carla notou ao ver pela janela do quarto, começavam a descer. Em breve seria preto no branco. Estaria mais para cinza, na verdade.

Tinha que aproveitar o tempo que restava. Fez um movimento, se agarrou ao pai e ele a abraçou rindo. Deu vários beijos no rosto dela e passava as mãos macias pelo corpinho da filha, hora ou outra fazendo cócegas como a mãe. Aquela família gostava de rir, era o que parecia. Carla podia até mesmo se lembrar que realmente pensara isso, ou sentira isso, quando estava naquela idade, naquele momento.

– Oh, o que foi, amor? – o pai perguntou ao notar as lágrimas. A careta que o bebê Carla fazia segundos antes de chorar era muito bem conhecida.

– Ela não tá deitada em nada? – a mãe perguntou, baixando a cabeça para inutilmente tentar ver a colcha debaixo das costas da filha.

Não, Carla não estava deitada em nada. Ela apenas podia ver que tudo estava para desaparecer. A mulher Carla não se lembrava de ter chorado naquele momento, então isso era algo novo. Como se a memória estivesse mudando, ou ainda melhor, o próprio passado estivesse mudando. Era apenas o efeito da pepita, é claro.

As cores chegavam perto do cinza. Lá fora, as folhas nas copas das árvores caíam e os galhos apareciam. A grama parecia apodrecer, encolhia, se contorcia. Os olhos do pai e da mãe se tornaram negros, o sonho se tornava um pesadelo. Mas valeu a pena, ah, se valeu. Mas tão pouco tempo. Foram cinco minutos ou uma hora? Talvez menos, talvez mais.

“Você não vai nem saber quanto tempo se passou e já vai acabar”, dissera Márcio. “Você deve tentar. Não disse que queria ver seus pais de novo?”

E continuou:

“Mas é difícil o final. Mas você é uma mulher forte, não é?”

Na excitação, ela dissera que sim. Agora não tinha mais tanta certeza disso. Vê-los assim tão de perto, vê-los se transformarem em monstros por completo. Era horrível. Não exatamente aterrorizante, mas causava uma onda de depressão. O bebê Carla continuou a chorar, e ela tinha certeza de que a mulher Carla fazia o mesmo. Até conseguia sentir os dois tipos de lágrimas lhe escorrerem pelo rosto, a falsa e a verdadeira. Eram ambas quentes e doloridas.

O pescoço do pai se alongou, seu rosto apodreceu até que os dentes estivessem a ponto de cair. Não caíram, simplesmente sumiram e deram lugar a um vão preto. O cheiro era de podridão, de morte. Nem mesmo o que sentiu ao entrar no prédio da pepita era tão forte e perturbador.

Os cabelos da mãe, ao contrário dos dentes do pai, caíam sim na cama. Seu rosto se afinava, sua expressão era como a daquela pintura O Grito. E o grito que vinha do bebê parecia capaz de estourar os tímpanos da Carla real. Do outro lado, talvez ela também estivesse gritando. Não sabia dizer. Não conseguia diferenciar suas pregas vocais das do seu antigo eu. Ambas doíam, era o que diria.

A garganta se fechou, elas não conseguiam nem mesmo respirar porque o ar entrava como ácido pelas narinas. Estava perto de acabar, por favor, esteja perto de acabar. Ela não aguenta mais, é doloroso demais. Eles morriam, morriam, morriam sem parar. Deitaram-se na cama e continuaram apodrecendo, tomando suas formas reais de agora, ela imaginou.

Os pedaços agora se tornavam mais concretos, caíam na cama, as palmas falsas do bebê conseguiam sentir. Sentiu pontadas no cérebro, era a realidade chamando. Toc, toc. Acorda!

Ela queria, ela queria acordar. Ao mesmo tempo, porém, queria continuar dormindo, ficar imersa na parte boa do sonho, não nessa merda. Queria pensar “nunca mais vou fazer isso, não se esse é o final” mas não conseguia. Ela queria fazer de novo.

Júnio se desesperou quando começou. Nunca antes fora daquele modo terrível, ela parecia estar tendo uma convulsão, ou pior. Tremia toda, chorava e gritava. Ele olhou pela janela uma hora, para ter certeza de que ninguém estava olhando para o prédio e se perguntando o que estava acontecendo. Não havia ninguém por perto, então isso era bom. Ela podia espernear o quanto quisesse, ninguém a ouviria.

Claro que, segundo ou outro, ele se perguntou se não deveria chamá-la. Parecia dor demais. Se fosse com ele, acreditava, ficaria agradecido caso o chamassem de volta para o mundo. Perguntou-se se seria ao menos possível acordá-la antes de o processo ser concluído. Terminou com o pensamento de que não era. Mesmo que fosse, vai saber o que aconteceria caso o fizesse.

Apenas quando a transição estava visivelmente no final foi que ele se deu a liberdade de chegar perto. Quando notou que ela já estava de volta, ajoelhou-se ao seu lado e a chacoalhou para que ela percebesse isso também. Carla abriu os olhos, de volta à cor normal, e percebeu Júnio ali, preocupado. Levantou-se num movimento rápido e o abraçou. Ele sentiu os ossos entortarem.

Olhando por sobre o ombro de Júnio, ela via a pepita de ouro que não era uma pepita de ouro. A pedra que sabe-se lá de onde veio. Talvez de outro planeta, talvez jogada na Terra por Deus para saber o que sua criação faria com ela.

Observando-a, Carla entendeu o que devia fazer. Afastou o homem e se levantou, ele a ajudou a se equilibrar. Júnio podia se enganar e dizer que não viu a motivação nos olhos dela, mas viu, e soube desde o início o que ela faria. Talvez devesse tê-la parado, mas não o fez porque uma voz dentro dele, a da consciência ou então a da avó, disse que ele não devia.

A janela do quarto estava aberta e a luz lá fora já cessara.

– Por quanto tempo…? – ela se viu incapaz de saber o que dizer. Dormi? Fiquei em transe? Desmaiei?

– Três horas – respondeu. – É sempre algo perto disso.

O único brilho era o da pepita dourada, e por um momento Carla não soube dizer se o vento gélido que corria pela sua pele vinha da noite ou da pedra. Aproximou-se da caixa de papelão retangular, com a boca virada para baixo e a bunda para cima. Parecia um pedestal, algo tirado de um filme do Indiana Jones.

Com a mesma cautela que ele teria, Carla se aproximou. Sentiu um formigamento nos pés e na mão mas não deixou que isso a interrompesse. Júnio estava parado ali atrás, apenas a observando com atenção. Carla pegou a pepita com as mãos. Pensou que ela faria a pele borbulhar como na vez em que ela tocou o cano de descarga da motocicleta do tio Igor, mas não. Era uma pedra, apenas. Um pouco fria, ainda brilhante, mas normal.

Foi até a janela com ela nas mãos, correu até a janela. Observou o mar um pouco mais além, viu a rua deserta. Nenhuma pessoa por perto, o que era melhor. Encarou a pedra por mais algum tempo. Júnio notou que a sua expressão era de ódio, também um pouco de desprezo e medo. Carla, por sua vez, simplesmente não queria mais ser tentada. E sabia que voltaria caso aquilo continuasse ali.

Talvez tenha se dado tempo, inconscientemente, para que Júnio corresse e tirasse a pepita das suas mãos. Talvez a espancasse e a jogasse para fora do prédio. Alguma parte dela queria que isso acontecesse, para que não fizesse o que devia fazer. Só que o homem ficou ali parado, apenas a olhando, como se esperasse que ela terminasse com aquilo tudo. A verdade era que ele também tinha medo. E dinheiro, já tinha dinheiro o suficiente.

Apenas precisaria pegar tudo o que acumulou com aquilo e teria um bom começo de vida aos quarenta anos. Aquela coisa vinda de outro mundo não precisava mais ser o seu sustento. Júnio pensou que, mesmo sem ter usufruído dos poderes da pepita, ela tinha alguma influência sobre ele. Estava viciado. Não viciado como os drogados da avenida Ipiranga, nem mesmo seus clientes eram viciados daquele jeito. Era como se todos os que estavam por perto da pedra realmente pudessem parar a qualquer momento se quisessem, apenas… Não queriam.

Claro que não. A dor que sentiam era muita no final, mas apenas se lembravam das partes boas, as ruins eram geralmente como se escondidas das suas próprias memórias. Talvez nem se lembrassem o quanto sofriam, não sabiam o quanto de medo Júnio sentia ao ver os choramingos dos últimos momentos.

E, num movimento rápido das mãos, a pepita voou do prédio para a rua, pairando no ar por alguns momentos intermináveis. De outro mundo. A gravidade talvez nem mesmo atuasse nela do mesmo modo como atuaria se fosse qualquer outra coisa. Continuou brilhando até o último momento, a luz pareceu até mesmo se intensificar.

A parede feia do edifício, a calçada lá embaixo, a rua, o começo da outra quadra. Tudo adquiriu um tom dourado e bonito. Carla, sim, se arrependeu de a ter jogado, pois pensou estar admirando a beleza pura, como se visse Deus em sua forma real. Era lindo, tudo!

Então a gravidade finalmente tomou conta do peso da pepita. Ela caiu muito mais rápido, isso fez com que o tempo que ficou no ar parecesse ainda maior. Bateu na rua, mas Carla podia jurar que ela começou a se transformar em pó muito antes disso. Como se a pedra estivesse com medo da morte e por isso se suicidou.

Os pedaços de brilho continuaram por algum tempo e então… preto. Negro. Breu. Tudo escureceu. Não se viu as migalhas, os fragmentos. Foi como se tivessem sumido, como os dentes do seu pai quando ele começou a apodrecer. Mas essa parte do sonho, do transe, já estava ficando esquecida na sua memória.

 

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