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O Herói e as Bestas (contos gratuitos para ler no Clube)

“A jornada de um pequeno herói em busca de vingança após os horrores causados pela Grande Depressão.”

 

Conto: O Herói e as Bestas

Autor: Luciene Bernardes

Gêneros: Ação e Aventura, Drama

Sugestão de som para leitura:

 

divisoria

 

Alguns falam que já vivi tempo demais e que devo morrer. Outros dizem que sou apenas uma criança e que com uma justa correção poderei render bons frutos para a sociedade. O fato é que apesar da pouca idade, há muito deixei meus poucos brinquedos encardidos de lado para brincar de super-herói. Os dias não andavam fáceis e desde a Primeira Grande Depressão tivemos que sobreviver com escassos recursos. A nossa cidadela fora toda bombardeada restando apenas pedra e poeira pelas ruas. Nesse tempo difícil aprendemos a conviver com a solidariedade e apoio de uns pelos outros.

Mas ainda podíamos passar horas brincando nas ruas, até que um dia, inesperadamente, uma nova onda de assalto e violência caiu sobre nós. Nossa cidadezinha foi invadida, e como éramos a maioria crianças e mulheres, nos afugentamos no interior de nossas casas. Não sabíamos quem eles eram a não ser que eram muito diferentes da gente. Eram maiores e mais fortes, peludos e com aquele estranho semblante de animais selvagens. Assisti a toda sorte de violência. Depois de submeterem os poucos homens e estuprarem nossas mães e irmãs, eles roubaram nossa comida e foram embora. De tanta vergonha não conseguimos mais olhar uns para os outros.

Dias depois conseguimos ouvir em nosso rádio de pilha um pronunciamento do governo dizendo que toda a situação havia sido controlada. Essas estranhas criaturas foram capturadas e estavam custodiados no Centro de Controle da União. Eu não acreditei. Constatei que fora muita destruição causada por tão poucos homens, ou animais, ou sei lá o que seriam aquelas criaturas. Senti que estávamos encurralados e decidi que iria eliminar esses monstros por mim mesmo.

Peguei minha velha mochila e a enchi com algumas utilidades, o que deu para encontrar em meio a tanta confusão. Fui até o quartinho do fundo, pois há algum tempo havia visto lá uma arma e alguma munição guardada junto com as quinquilharias do meu falecido pai. Meu pai era um homem valente e de bom coração. Morreu defendendo a mim e minha mãe durante os conflitos que eclodiram na Primeira Grande Depressão.

Andei sozinho vários dias pelas sombras e matos que cresciam entre as aldeias. Até então não havia encontrado nada de anormal ou desafiador em que pudesse descarregar a minha ira de vingança. Após sete dias caminhando sem rumo certo, avistei uma antiga linha férrea e ouvi o som de um trem que ia passando. Corri muito até conseguir me agarrar a um vagão que transportava ferros retorcidos. Estava faminto, cansado e talvez tivesse sido por isso que me deixei embalar e ser carregado para onde nunca saberia.

O trem apitava muito e me acordou, quando entendi que já havíamos chegado. Desci. Havia muitas pessoas ali e me senti perdido e imensamente solitário. Tentei alguma comunicação, mas era inútil, por que talvez fosse pelo meu tamanho, ninguém olhava para mim. Vaguei alguns dias na escuridão, comi restos disputados no lixo, dormi na sarjeta com os ratos. Senti-me humilhado pelo fracasso da missão incumbida por mim mesmo, porque ainda não havia encontrado nenhum sinal da existência dos maus feitores da minha família. Então decidi voltar para casa antes que nunca mais pudesse encontrar o caminho da volta.

Por sorte encontrei uma lotação que levaria algumas pessoas para os distritos e foi nela que entrei. Estava tão cansado, o corpo dilacerado que decidi não brigar com aquela névoa que me encantava a fechar os olhos. Foi então que tudo começou. Senti o meu corpo se incendiar com ataques febris e comecei transpirar um frio de arder toda a minha alma. Tentei manter o domínio da situação, mas pressenti que já não era mais dono de mim.

Pela janela vi algumas pessoas que me olhavam fixamente e ameaçadores. Logo previ que eles queriam fazer comigo o mesmo que fizeram com a minha mãe. Eram os mesmos monstros e estavam à minha espreita. Escuros e com as feições sujas, muitos pêlos desgrenhados no rosto e na cabeça. Talvez não usassem roupas de tão rotos que eram. Babavam e rosnavam vindo em minha direção. Eram as bestas e eu os reconheci. Os meus olhos tentaram lutar contra mim querendo se fechar e me apagar de vez, mas lutei bravamente. A minha mão já tinha escorregado para dentro da mochila e sentido o metal gelado que já havia sido engatilhado. Quando dei por mim novamente somente lembro-me dos gritos e estrondos dos vidros se quebrando e das pessoas, muitas pessoas, caídas no imundo vermelho do chão.

Agora aqui estou detido sob a custódia do Governo dando mais um depoimento para as autoridades do Controle Central. Faz três anos que me conservam neste local. Alguns dizem que já vivi tempo demais e que devo morrer, enquanto outros dizem que sou apenas uma criança e que com uma justa correção ainda poderei render bons frutos para a sociedade. Não sei ao certo qual será o meu destino, mas não ignoro que as aparências não enganam. Eles usam bons ternos, sapatos engraxados e óculos escuros, os rostos são bem barbeados e os cabelos milimetricamente alinhados, mas todos eles são, sem exceção, incrivelmente grandes.

 

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