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Floresta Mórbida (contos gratuitos para ler no Clube)

“Perdido em uma floresta em decomposição, um homem procura uma saída.”

 

Conto: Floresta Mórbida

Autor: Natanael Otávio

Gêneros: Sobrenatural, Suspense e Mistério, Reflexivo e Psicológico

 

 

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Não me lembro de quando e nem como entrei naquela floresta. Só me lembro de estar perdido ali e que o lugar agonizava: as árvores eram como fantasmas e nem os animais vicejavam, eram como sombras do que foram um dia. Arranquei um pouco de capim para observar melhor e ele se desmanchou em minhas mãos.

Meu celular tinha perdido o sinal. Meu relógio tinha parado – não sei se ao meio-dia ou à meia-noite. Só conseguia me lembrar de que ele era importante para mim. Talvez fosse um presente ou uma joia de família. Por algum motivo, eu era apegado a ele – um relógio de ouro cuja beleza parecia ainda mais extraordinária em meio ao horror que o contrastava. Era como um pequeno farol naquela escuridão, acendendo em mim uma tênue esperança de sair intacto daquele lugar.

Comecei a correr. Não poderia permanecer ali por muito tempo, sob o risco de ser absorvido e me tornar um rascunho do que sou – ou do que eu era. Tropecei numa raiz escura, coberta por um musgo que fedia a podridão como tudo ao meu redor.

Estava me sentindo cansado, mas não podia parar de correr. Às vezes eu atolava os pés em terrenos pantanosos, tropicava em raízes, escorregava em lodos – caía no choro. Mas algo me dizia: Enxugue as lágrimas e se levante. A vida é mesmo cheia de obstáculos. Não adiantava eu cair em prantos. Eu precisava seguir em frente, mesmo que num caminho incerto, que não chegasse a lugar algum.

Decidi continuar.

Havia mais alguém ali. Eu estava meio longe e a escuridão do ambiente não favorecia meus olhos, mas, se tivesse que apostar, diria que se tratava de uma mulher.

Aproximei-me com cautela. Ela – era mesmo uma mulher – estava de costas e sentada em um barranco.

Não estou mais sozinho, pensei. Espero que ela possa me ajudar a sair daqui.

Ao perceber a minha aproximação, a mulher olhou para trás. Fiquei assustado. Ela vestia farrapos pretos e cinzas, tinha aspecto fantasmagórico, seu rosto era como o de uma daquelas bonecas de porcelana – que alguém, não me lembro quem, colecionava –; a boca era vermelha assim como seus olhos, que mais pareciam dois rubis.

Percebi que ela estava diante de um precipício. E eu, naquele instante paralisado de medo, logo atrás dela.

– Você tem certeza de que quer parar aqui? – perguntou-me a mulher com uma voz quase sussurrada. – Pois saiba que aqui é o fim.

Ao tentar responder, eu gaguejava e não saía nada.

– Eu espero você se recobrar do choque – disse ela com sarcasmo. – A mim você não precisa temer. – Ela percebeu o meu medo e parecia se divertir com a cena.

Não sei ao certo por quanto tempo permaneci estático, mas, de algum modo, consegui finalmente dialogar com aquela aparição:

– Eu estou perdido e confuso sobre quem sou, como vim parar aqui…

– E?

– Quero sair desse lugar. A senhora – seja lá o que for – pode me ajudar?

– Senta. – Ela apontou um lugar ao seu lado à beira do precipício.

Eu hesitei.

Ela riu.

– Eu não mordo. – E logo se fez séria. – Aqui é tão frio. Dê-me um pouco do seu calor.

Fiquei receoso, mas obedeci. Ela tinha razão quanto ao frio, senti o hálito gelado do abismo pronto para nos engolir.

– Então, a senhora pode me ajudar?

Ela fixara os olhos de rubi em meu relógio.

– Talvez. Toda ajuda tem um preço… Você me daria o seu relógio? É o mais belo que já vi.

O meu relógio não.

– Não posso – respondi. – É importante para mim.

– Não posso. É importante para mim – ela imitou minha fala. – Ele não funciona. Está parado como nós dois aqui. Mas é lindo… Eu também não o daria… Pelo menos deixe-me vê-lo em minha mão, só um pouquinho, depois eu devolvo.

Não tinha outra escolha. Precisava confiar nela.

Retirei o relógio e o entreguei à mulher. O relógio atravessou a mão dela – como se fosse fumaça – e caiu no precipício. Enquanto caía, seu brilho ia desaparecendo na longínqua escuridão.

– Veja o que você fez, senhora! – gritei.

– Perdeu o medo de mim, meu jovem? – sua voz agora era fantasmagórica.

– Eu só quero sair desse lugar… – chorei. – Por favor?

– Se é assim, por que parou aqui em vez de continuar a correr?

Lembrei-me do que ela me disse assim que parei ali: “Você tem certeza de que quer parar aqui? Pois saiba que aqui é o fim”.

– Eu precisava de ajuda para sair desse lugar.

– Então, volte a correr.

Ela tinha razão. Eu precisava voltar a correr, mesmo que sem rumo. Talvez eu encontrasse o caminho de volta à vida. Levantei-me pronto para continuar.

– Por que não vem comigo?

– A minha missão é outra, meu jovem. – A mulher se atirou no precipício.

Aquilo me pareceu loucura. Mas, então, lembrei que ela já devia estar morta.

– Adeus, senhora – gritei.

Eu corria, caía, levantava e voltava a correr. Às vezes, tinha a impressão de que voltava sempre ao mesmo lugar, aos mesmos medos e ao mesmo horror.

E assim continuei, até ouvir o toque do meu celular.

O sinal voltou!

Atendi. Era uma voz de mulher a me informar que o relógio que eu tinha deixado para o conserto estava pronto…

– Você fez bem em trazer esse relógio para consertar, meu jovem, é o mais belo que já vi.

– Senhora? É a senhora mesmo?

Ela já tinha desligado o telefone.

Meu relógio! Lembrei-me que eu tinha ganhado aquele relógio do meu avô. Ele me pedira para que eu lhe contasse uma história e, se fosse boa, me daria o relógio de presente. Isso já faz tanto tempo.

Quando dei por mim, eu já não estava mais naquela floresta mórbida que tanto me assustava…

Eu caminhava no centro da cidade que, naquele momento, me parecia ser a mais bela do mundo.

 

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